POENTE

DOUGLAS MENEZES

Tenho ido, atualmente com frequência regular, a velórios e enterros, de pessoas amigas, conhecidos e até parentes: um irmão, há pouco mais de um ano e, recentemente, uma cunhada. Quase todos na faixa dos 60 aos 70 anos, como se houvesse uma tabela de vida para essa geração. É que a maioria dessas mortes veio fazendo parte de um processo longo de enfermidade, assim, hora marcada para o final. Faz medo, porque sou desse período, e porque ainda eram pessoas próximas, rodeando minha existência. Existe uma fase da vida na qual habita um pensamento de que a morte só chega para os distantes, nunca pra gente e os próximos, mesmo com as perdas de pai, mãe e tios. E também porque essa fantasia ocupa espaço em pessoas como eu, descrente de crença.
Hoje, no entanto aparece para mim a visão mais realista de que tudo agora pode acabar agora, como acontece com os outros. E fico surpreso pela tranquilidade e concepção estóica que se apoderaram de mim, entendendo o fatalismo existencial. Verdade a ingênua frase: “viver é morrer”, seja lentamente ou não.
No velório da cunhada Nilza, observei junto à viúva de Tuninho, minha comadre Lu, que os tempos mudaram o comportamento das pessoas nas solenidades fúnebres. Não mais o luto fechado de meses após, não mais as roupas sóbrias e escuras dos velórios e sepultamentos, num clima de medo e reverência, sem as excessivas, às vezes, manifestações dolorosas.
No hoje, um clima mais social e descontraído diante da morte, quase uma resignada aceitação do final da existência. E isso, observei, independe da idade de quem se findou. Talvez seja uma evolução, uma certeza do encontro com um mundo melhor, a tão sonhada espiritualidade, viagem à vida eterna, pregada por todas as correntes. O certo é que se não há festa ou alegria incontida nas solenidades fúnebres, existe uma postura sóbria por parte das pessoas, postando-se ali, num compromisso respeitoso, é verdade, porém, numa ação descarnada do lado emotivo que cerca essas ocasiões em um passado nem tão distante
Tenho ido a velórios e enterros ultimamente. Décadas atrás fugia, ao ouvir o solene toque da Matriz anunciando a passagem da “indesejada das gentes”.
Velório e enterro, hoje, parte da minha agenda. Solidariedade,compromisso social, humanismo, gosto pelo triste, ou talvez a certeza de que nos caminhos incertos a seguir, o poente apresenta-se como uma voz e uma paisagem cada vez mais próximas.
16/05/2015

Douglas Menezes


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