Pena menor para Roberto Jefferson

 

Edgar Flexa Ribeiro e Lucia Hippolito

Cora Ronai está coberta de razão: nesse episódio do mensalão não existem “presos políticos”. Há apenas uns políticos presos.Aprontaram, violaram as leis, foram denunciados. Seus atos foram investigados, suas defesas consideradas, seus processos chegaram à decisão do tribunal. Que os condenou por terem praticado as ilegalidades de que eram acusados. Ponto.Nesse quadro, dizer-se “preso político” equivale a alegar falsa qualidade. Não são isso não: são apenas políticos que, apanhados na prática de atos ilegais, foram julgados e condenados de acordo com as leis do país. Não há razão política que prepondere sobre os fatos. Praticaram esses atos e vão pagar – como qualquer um de nós, cidadãos comuns – pelo que fizeram.Agora, já que se pode pretender ser o que não se é, existem outros aspectos que se poderiam ser levantados.Por exemplo: nós, cidadãos comuns, temos direito ao que se chama “delação premiada”.Se tivermos conhecimento da prática de algum ato condenado como crime pela lei, e por ela apenado, mesmo que dele tenhamos participado, podemos ser beneficiados de alguma forma se o denunciarmos.

 

Roberto Jefferson, delator do Mensalão

 

Tipo: “Olha: fulano fez isso de errado, eu colaborei, mas por estar arrependido, ou danado da vida porque me passaram para trás, ou porque não me deram a minha parte, por isso ou por aquilo eu fiquei com raiva e contei a vocês para que possam tomar suas providências”.O mínimo que se espera numa hora assim é que, julgado e condenado como todos, eu receba uma redução na minha pena por ter contado tudo. Ou seja, um prêmio pela delação.Roberto Jefferson merece esse tratamento. Não fosse ele e não saberíamos até hoje que havia um “carequinha” super poderoso que trafegava pelos mais altos gabinetes da República, alvo de salamaleques, consideração e respeito por parte de autoridades dos altos escalões, todos envolvidos em um extenso programa de traquinagens e manigâncias.Ele denunciou. Participou? Sim, mas falou e contou. Merece receber por isso uma redução na sua pena.Aliás devia se fazer já uma lei sobre isso, que explicitasse os benefícios que todo e qualquer servidor público, no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, poderia esperar receber se denunciasse atos ilícitos e ilegais de autoridades públicas às quais fossem subordinados.Com essa enxurrada de cargos em comissão ocupados por uma ciranda de apadrinhados de todo tipo, os servidores de carreira iriam certamente se sentir mais seguros para por a boca no trombone quando percebessem que estavam sendo manipulados para fins escusos.Os servidores de carreira poderiam ser estimulados a agir como Roberto Jefferson. O motivo importa pouco, mais vale o resultado final: os culpados pagariam.

Edgar Flexa de Ribeiro é educador

Os petralhas condenados no mensalão deveriam receber honras militares e prêmios de Doutores como os petistas querem

Membros do PT-PE condenam atuação de Joaquim Barbosa

Membros do PT de Pernambuco emitiram nota condenando “a espetacularização” promovida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, ao longo do processo do mensalão. O texto, assinado pela corrente “Radicalizando nas Ações e Unificando nas Lutas”, afirma, ainda, que “a mais alta corte do país cometeu equívocos que podem custar caro à justiça brasileira num futuro próximo” e sai em defesa contra a “condenação sem provas de Zé Dirceu, [José] Genoíno e Delúbio [Soares]”.

Leia, na íntegra, a nota emitida por integrantes do diretório estadual do Partido dos Trabalhadores:

“A espetacularização das prisões dos réus da AP 470 foi um triste capítulo na recente democracia brasileira. Nós da Radicalizando nas Ações e Unificando nas Lutas (RAUL) nos manifestamos em solidariedade através desta nota:

1 – A mais alta corte do país cometeu equívocos que podem custar caro à justiça brasileira num futuro próximo.

2 – A condenação sem provas de Zé Dirceu, Genoíno, Delúbio e outros envolvidos configura um negativo ineditismo baseado no domínio do fato, que o seu uso, nesse caso, foi contestado, inclusive, pelo seu próprio criador, o jurista alemão Claus Roxin.

3 – O não desmembramento do processo, logo no início, para a primeira instância, não garantindo o direito ao duplo grau de jurisdição, gerando um foro privilegiado, caracterizou o caso como um julgamento de exceção.

4 – Repudiamos a espetacularização promovida pelo presidente do STF, Senhor Joaquim Barbosa, do começo até as recentes prisões.

5 – Somos solidários, em especial, ao companheiro José Genoíno, que, mesmo com a saúde debilitada, demonstra altivez e compromisso com a verdade.

6 – Somos solidários ao companheiro José Dirceu, no qual temos referência política, mas que não teve o direito à presunção de inocência e foi achincalhado publicamente, antes mesmo do resultado da AP 470.

7 – Esperamos, ainda, um julgamento justo, baseado nas leis e procedimentos jurídicos, e que o mesmo aconteça na Corte Interamericana sem que exista, como aqui demonstrou, um julgamento político ou de exceção.

8 – Por fim, que esse momento sirva de reflexão ao Partido dos Trabalhadores. Os verdadeiros adversários do PT estão fora do partido. O excesso de disputa interna só potencializa as diferenças.lula decepção

Viva ao PT!
RAUL / Partido de Cara Nova.”

A pena mais justa que Lula vê para os mensaleiros

 

Por Ricardo Noblat

justiçaNa semana passada, quando soube que os primeiros condenados do mensalão haviam sido presos, Lula afirmou esbanjando sensatez:- Quem sou eu para comentar uma decisão do Supremo Tribunal Federal…A sensatez começou a se esgarçar tão logo ele telefonou para José Dirceu e José Genoino e comentou:

– Estamos juntos!

O que significa, em outras palavras, “estou ao lado de vocês”.Quando estourou o caso do mensalão, Lula se disse traído, mas não revelou o nome dos traidores.É razoável supor que nenhum dos Josés (Dirceu e Genoino) tenha traído Lula. E que Lula os considera inocentes dos crimes pelos quais foram condenados na mais alta instância da Justiça. Do contrário, simplesmente não haveria porque se solidarizar com eles (“Estamos juntos!”)O comentário, que Lula disse que não faria à decisão do STF, fica ainda mais claro quando ele, hoje, provocado por jornalistas, decretou:- Eu estou aguardando que a lei seja cumprida e quem sabe eles fiquem em regime semiaberto.Para Lula, portanto, a forma ideal ou única ou a mais justa de a lei ser cumprida é a escolha do regime semiaberto como aquele que servirá de punição para os condenados do mensalão – ou pelo menos para os petistas condenados. Fora daí seria uma exorbitância.Contraditório e um tanto confusamente, Lula avançou o sinal que ele mesmo estabelecera para si. E tudo em menos de uma semana. O que virá em seguida

NEM TÃO CHATA ASSIM

 

DOUGLAS MENEZES

  sandáliasEstão postas lá, as sandálias. Não as procurei debaixo da cama como se diz das segundas-feiras. O chato dia depois do final de semana. Mas se o sábado foi bom com os amigos de copo, a ceva gelada, nenhum remorso ou ressaca moral no outro dia? Domingo com filhos voltando do lazer e na TV a vitória do santinha. Domingo de almoçar fora, chegar cedo em casa,  deitar na rede e pensar, refletir na vida e olhar que ainda vale a pena, pois algumas notícias foram boas. Tem gente que fez malfeito e foi presa, talvez a ilusão de que algo mude, Dilma disse não a farra da criação de municípios. Criar cidade em meio à crise econômica e a municípios de pires na mão, quando há tanta coisa mais importante para fazer neste país é um contrassenso. Mais uma notícia boa contra a formação de currais.

  Nem tão chata assim, a segunda. Rever colegas contando o final de semana, de sol e praia, lembrar o almoço no Costinha  com a companheira, sem os filhos nem neto, como se fosse tempos atrás. A vida seguindo seu rumo, porque se não existisse segunda, diriam que a chatice seria a terça. A favor da segunda, o seu período, que também é de vinte quatro horas e por isso passa logo, como os outros dias. Se não fosse ela, as terças não seriam mais risonhas e os finais de semana não se tornariam mais próximos uns dos outros.

 Lembrar também  o entardecer das segundas, ainda meio preguiçoso, mas já anunciando a noite,  e mais importante ainda,  anunciando o amanhecer de um outro dia, onde coisas diferentes podem pintar.Amemos então, as segundas-feiras como o recomeço de novas oportunidades e talvez de planos futuros plenamente realizáveis. Acho bom sonhar nos feriados, nos sábados e domingos, porque as segundas são feitas para o lado concreto da existência, onde baixamos as máscaras e suas ilusões, para reencontrarmos a vida como ela se apresenta: de luta e desprendimento. A segunda é boa, é só a gente querer que seja. E que as sandálias estejam unidas junto à cama, nessa manhã de sol, para cada um de nós.

DO ROMANTISMO REAL AO CONCRETISMO ROMÂNTICO

 

SAMBA E AMOR

OUGLAS MENEZES

 CHICO BUARQUEBom é conversar sobre a música e a poesia dos gênios da MPB valorizando aqueles trabalhos menos famosos. Os badalados demais, deixam aquele gosto de que de tão falados e analisados tornam-se chatos e com um certo tempero de vulgaridade. Ouvi-los entediam e impacientam. E isto não é diferente em relação a Chico Buarque. Há músicas do compositor carioca que de tão cantadas e decantadas parecem não ter amais o que dizer e o que se criticar, mesmo a crítica laudatória, aquela onde só se vê virtudes.

 Pois bem, na década de setenta do século vinte, mais precisamente em mil novecentos e setenta, a então quase unanimidade Francisco Buarque de Hollanda lançava um  disco que é considerado, ainda hoje, como o divisor de águas entre a fase melosa, lírica demais, romântica em excesso e o novo caminho seguido pelo autor, onde pontifica uma poesia mais madura, numa visão crítica e real, numa sintonia com os novos ventos da humanidade. O passadismo dos discos anteriores, vai dar lugar a um presente buscado na temática do dia a dia, da realidade concreta das pessoas. Chico percebe, então, que sua arte precisava engajar-se dentro de um mundo menos utópico e cor-de-rosa para viver a revolução de ideias daquele período, inclusive na questão política, no problema da democracia, da luta contra a ditadura. Talvez tivesse tido a consciência de que sua poesia ficara defasada, de conteúdo alienante, embora aqui e ali, houvesse a preocupação política e até mesmo existencialista, como em Umas e Outras. Então, justiça se faça, o disco quatro de Chico mostra realmente essa mudança de rota. Um disco de mais qualidade tanto na forma como no conteúdo.

 Mas quero, na verdade, é chamar a  atenção, naquele álbum, para uma música pouco falada à época: Samba e Amor, que posteriormente foi gravada por Caetano Veloso.

 O primeiro passo para bater um papo sobre essa música, é sentir a quebra do pudor amoroso existente nas canções anteriores de Chico. O platonismo de Bem Vinda, Carolina, Até Segunda-feira, Januária,  entre outras, é substituído pelo amor físico, desde o início da música, um erotismo pouco visto até então dentro da poesia do  autor carioca. Os dois primeiros versos atestam essa nova concepção: “Eu faço samba e amor até mais tarde \ E tenho muito sono de manhã”. O animismo poético da outra fase é cortado pela exaltação e afirmação do amor físico, como a iniciar uma relação estreita com a realidade concreta e circundante.

 A partir desse momento, todo um processo que mescla realismo fantástico e um concretismo expresso em uma melodia arrastada, simbolizando o espreguiçar dos amantes. A imagem que denota o dualismo conflituoso entre trabalho e prazer ganha contornos quase dramáticos, além do realismo fantástico, com o trânsito barulhento contornando a cama e interferindo na realização do amor: “O trânsito contorna a nossa cama \ Reclama do nosso eterno espreguiçar”.

 Nos versos seguintes,  a constatação de que o eu lírico está adquirindo uma nova postura diante da relação amorosa. A Bem Vinda do romantismo mal do século, meloso por demais, cara de quase duzentos anos atrás, transformou-se no objeto do amor carregado de erotismo e visão materialista do encontro homem\ mulher: “No colo da bem vinda companheira \ No corpo do bendito violão \ Eu faço samba e amor a noite inteira \ Não tenho a quem prestar satisfação”. Tendo este último verso uma carga evidente de rebeldia.

 Samba e Amor pode não representar uma canção das mais trabalhadas de Chico Buarque, mas evidencia a nova postura do autor diante da realidade que o cercava na década de setenta do século vinte. O seu volume quatro é um disco emblemático dessa nova fase,  em que o autor busca o confronto direto com o conservadorismo e político.  Em um dos versos,  na segunda parte da música, o eu lírico, num misto de impaciência e até certo desespero interroga: “ Será que é tão difícil  amanhecer?” Havendo aí duas interpretações  com referência à indagação: a angústia do nascer do dia, com o barulho das fábricas e da insistente zoada do trânsito, incomodando os amantes, e ainda o difícil  amanhecer representando a dificuldade de se ter liberdade democrática, de se ter um estado de direito que pusesse fim à ditadura.

  Por fim, Samba e Amor,  sendo uma canção em tom menor, expressa uma certa melancolia, uma leve tristeza pela melodia lenta, arrastada, um  certo cansaço em relação a um período que a gente quer que não volte mais.

Eleitor de Lula, Barbosa tornou-se algoz do PT

DO BLOG DE JOSIAS DE SOUZA

 Joaquim Barbosa foi caprichoso na execução das penas do mensalão. Poderia ter aguardado até segunda-feira para mandar prender os condenados. Preferiu apressar o passo. Levou trabalho para casa, lapidou os mandados de prisão até tarde da noite, e mandou recolher os presos em pleno feriado. Um feriado simbólico: 15 de novembro, Dia da Proclamação da República. Foi como se o ministro desejasse, por assim izer, reproclamar a República.Primeiro dos oito ministros indicados por Lula para o STF, Barbosa chegou ao tribunal graças à coloração de sua pele. Recém-empossado, em janeiro de 2003, Lula incumbiu o então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos de encontrar um nome para o Supremo. Fez uma exigência: no melhor estilho ‘nunca antes na história’, queria nomear o primeiro ministro negro do STF.Thomaz Bastos garimpou um negro de mostruário. Primogênito de oito filhos de um pedreiro com uma dona de casa da cidade mineira de Paracatu, Barbosa formara-se e pós-graduara-se na Universidade de Brasília. Passara pela Sorbonne, fora professor visitante de Columbia e lecionava na Universidade da Califórnia. De quebra, votara em Lula.Indicado com “entusiasmo”, Barbosa tomou posse no STF em junho de 2003. Decorridos dez anos, frequenta o noticiário como uma espécie de coveiro do ex-PT. Lula procurava um negro. Achou um magistrado. Entre fazer média com o petismo e exercer o seu ofício, Barbosa optou pela lei.No penúltimo lance do processo, Barbosa levou ao plenário a tese do fatiamento das penas. Fez isso para antecipar a execução dos pedaços das sentenças insuscetíveis de recurso. Prevaleceu no plenário. E impediu que o STF virasse Papai Noel dos condenados que questionaram parte dos veredictos por meio dos famosos embargos infringentes, ainda pendentes de apreciação.

Quarenta dias antes do Natal, em pleno Dia da Proclamação da República, Barbosa mandou para a cadeia uma dúzia de condenados graúdos – políticos, banqueiros, operadores de arcas eleitorais. Coisa nunca antes vista na história desse país, diria Lula se pudesse.

O PT critica as condenações. Dirceu e Genoino declaram-se presos políticos. Devem a perseguição a Lula e Dilma. Passaram pelo julgamento do mensalão, além de Barbosa, outros sete ministros indicados por Lula e quatro escolhidos por Dilma Rousseff.

Barbosa não foi a única autoridade brasiliense a celebrar o calendário. Dilma também anotou no Twitter: “Hoje comemoramos o 124º aniversário da Proclamação da República. A origem da palavra República nos ensina muito. A palavra República vem do latim e significa ‘coisa pública’.
 Ser a presidenta da República significa exatamente zelar e proteger a ‘coisa pública’, cuidar do bem comum, prevenir e combater a corrupção.”

Embora não tivesse a intenção, foi como se Dilma batesse palmas para o STF e para Barbosa, o magistrado que Lula imaginou que fosse apenas negro.